A conta bilionária da inteligência artificial: até onde vai o apetite dos hyperscalers por data centers
O capex das catorze maiores operadoras de data center do mundo deve somar cerca de US$ 750 bilhões em 2026, quase o dobro do valor investido dois anos atrás. Meta, Microsoft, Amazon e Alphabet lideram essa corrida, e o caso mais recente ilustra bem o tamanho da aposta: o projeto Hyperion, da Meta, na Louisiana, teve o orçamento revisado de US$ 27 bilhões para mais de US$ 50 bilhões em questão de meses.
O volume de capital não é o único dado relevante. A capacidade de data center em construção no mundo já ultrapassa 23 gigawatts, e o Departamento de Energia americano projeta que esses centros podem responder por até 12% da demanda elétrica dos Estados Unidos em 2028. A infraestrutura de energia, e não apenas os chips, virou o gargalo da corrida por inteligência artificial, o que explica por que fabricantes de turbinas e equipamentos elétricos, como Eaton e Caterpillar, também vivem um ano recorde de pedidos.
O ponto de atenção para investidores está na divergência entre o discurso das empresas e a reação do mercado. Três das quatro maiores hyperscalers perderam valor de mercado após as últimas divulgações de resultado, mesmo elevando suas projeções de investimento. A dúvida não é sobre a demanda por inteligência artificial no longo prazo, mas sobre o retorno desses aportes no curto e médio prazo. A própria Meta sinalizou a solução mais óbvia para esse desconforto: revender capacidade computacional ociosa para outras empresas, incluindo concorrentes diretos no desenvolvimento de modelos.
Esse movimento de venda de capacidade é um indicador a observar de perto. Quando uma companhia que gasta US$ 145 bilhões em capex anual passa a montar um negócio de nuvem para monetizar excesso de capacidade, isso sinaliza tanto confiança na demanda futura quanto pressão real por resultado no presente. Para quem aloca capital, o discurso de infraestrutura essencial e resiliente a recessão convive, na prática, com múltiplos elevados e concentração de risco em um número pequeno de empresas.
A lição para investidores brasileiros expostos a este tema, seja via ações americanas, fundos multimercado ou fundos de venture capital com teses de inteligência artificial, é separar duas perguntas que costumam ser tratadas como uma só: a tecnologia vai mudar a economia, isso já está dado. Mas nem toda empresa que constrói data center vai capturar esse valor na mesma proporção, e o mercado começou a cobrar essa distinção com mais rigor.


