Quando o crédito deixa de financiar crescimento e passa a financiar o caixa
O número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 9,2 milhões em julho, novo recorde da série da Serasa Experian, com R$ 238,6 bilhões em dívidas em atraso. As micro e pequenas empresas somam 8,7 milhões desse total e carregam, em média, quase sete contas negativadas cada uma. O juro médio do crédito livre para empresas ficou em 25,2% ao ano em maio, um ponto percentual acima do registrado um ano antes.
O detalhe que mais nos interessa é para que as empresas estão pedindo dinheiro. A busca por crédito cresceu 9,2% nos 12 meses até junho, mesmo com juros nesse patamar, e foi puxada por capital de giro, não por investimento. O empréstimo está pagando fornecedor, imposto e folha. Não está financiando máquina nova, estoque maior ou contratação.
Há sinais de alívio, e vale registrá-los. A pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do Sebrae, mostra que a parcela de pequenos negócios com dívidas em atraso caiu de 28% em março para 25% em julho, e que 46% dos pedidos de crédito foram aprovados, o maior índice da série iniciada em 2022. Mas aprovação não é sinônimo de crédito barato nem adequado, e um em cada quatro pequenos negócios ainda relata atraso.
Nós enxergamos nisso uma diferença que o juro sozinho não explica. Empresa que usa crédito para cobrir o caixa está pagando para manter a operação de pé, não para crescer. Quando cada real emprestado preenche a lacuna entre o dia de pagar e o dia de receber, o problema está no ciclo financeiro do negócio: no prazo de recebimento, no giro do estoque, na margem. O banco só adia a conta.
Para nós, crédito é ferramenta, e funciona quando financia algo que gera retorno acima do próprio custo. Com a Selic em 13,75% e o crédito empresarial acima de 25%, a conta fecha para poucos usos: capacidade produtiva com demanda comprovada, tecnologia que reduz custo, estoque de giro rápido. Todo o resto pede gestão de caixa antes de pedir banco. Três perguntas ajudam a separar uma coisa da outra: qual é o prazo médio de recebimento e de pagamento, qual é a taxa efetiva que a empresa paga hoje, incluindo tarifas e seguros, e se o recurso vai financiar algo que gera receita ou algo que já foi gasto.

