O que qualquer próximo ciclo político precisa entregar para destravar investimento no Brasil
Independentemente do resultado das eleições, o Brasil chega ao próximo ciclo político em uma posição pouco comum para os padrões recentes. O déficit em conta corrente está abaixo do volume de investimento estrangeiro direto que entra no país, as reservas internacionais somam mais de US$ 370 bilhões, a inflação caminha para um patamar entre 4% e 4,5% e o desemprego está próximo das mínimas históricas. É uma combinação de fundamentos que o país não reunia há pelo menos três décadas.
Falta resolver uma única peça, e ela pesa mais do que todas as outras somadas: a trajetória da dívida pública, que segue crescendo em ritmo mais rápido do que a economia. Enquanto essa conta não for endereçada de forma crível, o custo do dinheiro no Brasil continua estruturalmente mais alto do que os fundamentos macroeconômicos justificariam, e a Selic segue distante do patamar praticado por outros países emergentes com fundamentos parecidos.
Nós olhamos para essa combinação e chegamos a uma conclusão direta: o ajuste fiscal não é uma bandeira política, é uma condição técnica para que o Brasil deixe de operar com juro de dois dígitos. Se essa peça for resolvida de forma consistente ao longo do próximo ciclo, existe espaço real para uma Selic de um dígito, algo que mudaria de forma estrutural o custo de crédito para empresas de todos os portes, a atratividade da bolsa frente à renda fixa e o cálculo de qualquer negócio que hoje trava por falta de crédito acessível.
Esse tipo de transformação não depende de qual partido governa, depende de continuidade e previsibilidade regulatória depois da eleição. Para empresas e investidores, a lição prática não é apostar em um resultado eleitoral específico, é acompanhar de perto os sinais concretos de ajuste fiscal que vierem a partir de 2027, porque são eles, não o resultado da urna, que vão determinar se o próximo ciclo entrega juro civilizado ou repete o de sempre.


